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Vamberto Freitas

ou uma outra forma de resistência cultural 

 

Há  um discurso cultural que escreve Vamberto Freitas, professor, ensaísta, crítico literário, jornalista cultural, cronista e tradutor. Nascido na ilha Terceira, emigrou aos 14 anos para os Estados Unidos da América. Na California State University, em Fullerton, completou a licenciatura em Estudos Latino-Americanos, tendo leccionado literatura no ensino secundário norte-americano, ao mesmo tempo que desenvolvia profícua actividade nos jornais da comunidade, na radio portuguesa, na organização de congressos estaduais sobre o ensino bilingue e sobre a problemática da imigração.

Estudioso da literatura americana, foi correspondente do Diário de Notícias junto das comunidades portuguesas da Califórnia. Nos anos 90 regressou aos Açores, tendo-se fixado em S. Miguel, em cuja Universidade é professor. Em Ponta Delgada desenvolve, a par de outras actividades, papel de grande relevo no suplementarismo cultural, tendo fundado e coordenado o Suplemento Açoriano de Cultura (1995-2000), no jornal “Correio dos Açores”, projecto que contribuiu, decisivamente, para dar a conhecer a força da afirmação cultural açoriana.

É este observador atento do real português, açoriano e da diáspora que, numa linha de contínua e continuada coerência intelectual, deu à estampa o livro Jornalismo e Cidadania: dos Açores à Califórnia (Salamandra, 2002).

Tal como já o havia feito nos seus oito livros anteriores, também neste, Vamberto Freitas lança olhares à idiossincrasia da cultura açoriana. Mais uma vez encontramos o autor bem apetrechado em termos teóricos, com capacidade de informar, esclarecer, decifrar e avaliar, e que incorpora nos seus discursos culturais os métodos e as preocupações dos mais diversos ramos da ensaística e da investigação literária. Estamos perante um conjunto de ensaios contundentes e bem informados, escritos num português vivíssimo, em estilo limpo, de grande finura lexical, e com uma muito bem conseguida articulação de ideias.

Sabendo-se que, à boa maneira empirista, as ideias chegam a nós pela experiência, temos que Vamberto Freitas sabe do que fala e fala sobre o que sabe e conhece. Da sua vivência em terras americanas e açorianas, da assimilação de duas culturas diferentes, faz este autor cálculos, retira conclusões. Descobriu-se açoriano na América. Hoje é um resistente cultural nas ilhas, estudioso acérrimo de cinco séculos de história cultural, de imaginário e de tradição literária nos Açores. Homem de letras, ele é um “ser que habita a palavra” (Heidegger), apreensivo que está com o destino da cultura e das artes, preocupado que se encontra com políticas culturais e outras estranhas formas de terrorismo cultural,  praticado dentro e fora dos Açores…

Recorde-se que este autor fez a sua educação literária numa universidade americana. Se o seu pensamento é profundamente português, a sua metodologia de análise é estruturalmente anglo-saxónica. Quero com isto dizer que este autor não é dos que usam palavras a mais para esconder ideias a menos… Bem pelo contrário: sem flores na lapela, nem brincos semióticos, ele dá forma e expressão ao que sente e pensa. E fá-lo de forma eficaz e eficiente. Nesta perspectiva considero-o irmão na escrita com Onésimo Teotónio Almeida e Diniz Borges. Muito se fica a dever a esta trindade luso-americana (estando Onésimo no vértice do triângulo) em termos de informação, da promoção da cultura e da defesa da língua portuguesa nas comunidades da diáspora.

Vamberto Freitas escreve Açores de dentro para fora e de fora para dentro. E projecta as ilhas em espaços europeus e universais. Para este autor, em tempo de globalização, “as nossas geografias são interiores e nada já têm a ver com distâncias terrestres” (pág. 93). Por isso torna-se imperioso reintrepretar e reinventar a tradição literária açoriana. Para que, deste modo, algum testemunho cultural possa ser dado às gerações vindouras.

Mas Vamberto Freitas não é apenas autor de ensaios, também  é dotado de sensibilidade estética e capacidade criativa, ele que recentemente fez uma excelente tradução do belíssimo conto “O homem que era feito de rede”, da autoria de Katherine Vaz (Salamandra, 2002). Assisto com muito interesse a esta faceta de Vamberto. Sendo a tradução um trabalho de criação, pode ser que tal funcione como motivação e inspiração para que este nosso ensaísta de mérito, se inicie, a curto ou médio prazo, na ficção narrativa. Quem sabe?

Até  lá, fiquemos com a certeza de que Vamberto Freitas existe e resiste nas ilhas e na cultura açoriana. Estejamos atentos a este intelectual da reflexão, do debate das ideias, do equilíbrio, da ponderação e da amorenta serenidade. 

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